O OLHAR QUE ENQUADRA E A VIDA QUE REEXISTE: ESCRAVIZADOS DE GANHO NAS LITOGRAFIAS DE FREDERICO G. BRIGGS NO RIO DE JANEIRO OITOCENTISTA.

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CENTRO FEDERAL DE EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA CELSO SUCKOW DA FONSECA

Resumo

In this research, I investigate the representations of the escravizados de ganho in the city of Rio de Janeiro in the 19th century, as depicted in the lithographs of the AngloBrazilian artist Frederico Guilherme Briggs, collected in the work Tipos e Cenas do Brasil Imperial. I analyze how these images, while documenting aspects of urban daily life, also function as symbolic instruments of contestation for space, power, and social memory. I start from the premise that the lithographs do not constitute neutral visual records, but express a racialized discourse that reflects and naturalizes the social hierarchies of their time. To understand this process, I mobilize the concepts of paisagem e território, linking them to perspectives on relações étnicos-raciais and cultural geography, to grasp how urban space was constructed, occupied, and contested by the Black bodies that inhabited and transformed it.Methodologically, I adopt iconographic and iconological analysis, as proposed by Erwin Panofsky, which allows me to interpret the lithographs not only through their formal content but also through the social, political, and symbolic meanings they evoke. I also carry out an interdisciplinary bibliographic review, engaging with authors who address urban slavery, 19th-century iconography, and visual representations of labor. The empirical corpus of the research includes urban panoramas and "tipos de rua" lithographed by Briggs, highlighting figures such as vendors, porters, and quitandeiras, key characters in the dynamics of the imperial city.The analysis reveals that these lithographs construct a racialized landscape, in which Black subjects appear simultaneously as an indispensable yet invisibilized part of the urban order. However, by highlighting the active presence of these workers on the streets, I perceive that the images also express subtle forms of autonomy, resistance, and resilience. Thus, I understand that the "spaces in dispute" go beyond physical geography, encompassing the symbolic realm where memories, belonging, and inequalities are constructed.I conclude that the work of Frederico Guilherme Briggs, reinterpreted through a contemporary lens, provides a powerful tool to rethink the visual history of imperial Rio de Janeiro, emphasizing Black protagonism in shaping the city and revealing the tensions between domination and agency inscribed in the social imagination of 19th-century Brazil.
Nesta pesquisa, investigo as representações dos escravizados de ganho na cidade do Rio de Janeiro do século XIX, conforme retratados nas litografias do artista anglo-brasileiro Frederico Guilherme Briggs, reunidas na obra Tipos e Cenas do Brasil Imperial. Analiso de que modo essas imagens, ao mesmo tempo em que documentam aspectos do cotidiano urbano, atuam como instrumentos simbólicos de disputa por espaço, poder e memória social. Parto da premissa de que as litografias não constituem registros visuais neutros, mas expressam um discurso racializado que reflete e naturaliza as hierarquias sociais de seu tempo. Para compreender esse processo, mobilizo os conceitos de paisagem e território, articulando-os às perspectivas das relações étnico-raciais e da geografia cultural, a fim de compreender de que maneira o espaço urbano foi construído, ocupado e disputado pelos corpos negros que o habitavam e transformavam.Metodologicamente, adoto a análise iconográfica e iconológica, conforme proposta por Erwin Panofsky , o que me permite interpretar as litografias não apenas em seu conteúdo formal, mas também nos significados sociais, políticos e simbólicos que evocam. Realizo, ainda, uma revisão bibliográfica interdisciplinar, dialogando com autores que abordam a escravidão urbana, a iconografia oitocentista e as representações visuais do trabalho. O corpus empírico da pesquisa compreende panoramas urbanos e “tipos de rua” litografados por Briggs, com destaque para as figuras de vendedores, carregadores e quitandeiras, personagens centrais na dinâmica da cidade imperial. A análise revela que essas litografias constroem uma paisagem racializada, na qual os sujeitos negros aparecem simultaneamente como parte indispensável e invisibilizada da ordem urbana. Entretanto, ao evidenciar a presença ativa desses trabalhadores nas ruas, percebo que as imagens também expressam formas sutis de autonomia, resistência e reexistência. Assim, compreendo que os “espaços em disputa” vão além da geografia física, abrangendo o campo simbólico em que se constroem memórias, pertencimentos e desigualdades. Concluo que a obra de Frederico Guilherme Briggs, reinterpretada sob uma ótica contemporânea, oferece um potente instrumento para repensar a história visual do Rio de Janeiro imperial, destacando o protagonismo negro na conformação da cidade e desvelando as tensões entre dominação e agência inscritas no imaginário social do Brasil oitocentista.

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